Cartas do vale #8

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Quando atingi a idade imposta pelo estado para exercer funções de defesa da pátria recebi uma carta. Era-me pedido que me apresentasse com urgência num determinado ministério com a finalidade de prestar serviço militar. Soube, mais tarde, que seria enviado para a fronteira e limitei-me a obedecer. O meu destino era uma abandonada fortificação no alto de um monte, não existindo nem guarnição de soldados, nem generais a cavalo, nem canhões, nem outros objectos militares que pudessem fazer perigar a minha existência, nem mesmo uma aldeia próxima. Era apenas um sítio cru, com um poço e uma macieira a fazer sombra sobre a boca do poço no centro da parada. Poderia ter não querido ir, estou certo disso. Se tivesse manifestado esse desejo não iria, certamente. Podia ter dado parte de doente, recusado a ordem alegando ser imprescindível nos cuidados prestados a um parente de relação directa que se encontrava acamado, outra coisa qualquer poderia ter inventado. Mas nada disse que contrariasse a ordem, e nada diria se me encontrasse verdadeiramente impossibilitado de ir. E fui, aceitando uma comissão de muitos meses a fio com o fito de olhar para as nuvens e de contar bandos de pássaros extraviados que entram no país daquele lado da fronteira. Foi o que me foi exactamente dado a fazer e por isso aceitei o oferecimento.
Na véspera da minha partida dirigi-me conforme escrito na carta que recebi ao Ministério de Estado da Transcendência e dos Assuntos Internos que se situava na cidade capital da região onde residia. Lá, onde os inúmeros corredores pareciam não ter fim, fui atendido por diligentes funcionários que iam colocando toda a espécie de carimbos nos papeis que me eram pedidos. Límpida pedra mármore cor de rosa cobria o interior da edificação reflectindo a luz austera que provinha de aberturas existentes nas paredes. pessoas caminhando em silêncio de um lado para o outro. No meu passo atento cruzei-me com toda esta espécie de gente que trabalha para o estado. Pessoas muito sérias, uns transportando pastas, outros que certamente seriam conhecedores de assuntos graves e importantes, matérias que não estariam ao alcance do meu saber. Por fim, tratada a papelada e autenticada a documentação, conduziram-me ao gabinete de fardamento gerido por um oficial alfaiate que me tirou as medidas e que, depois de consultar o livro que continha as regras e realizado alguns cálculos matemáticos simples deu-me uma farda azul e branca, um casacão de inverno, meias e cuecas, camisas interiores e um chapéu para a cabeça que deduzi servir para não apanhar sol em excesso. Deu-me com igual frieza um par de botas que não me serviam. Estão um bocado apertadas, disse das botas. Há muito que não fazemos o teu número, respondeu o oficial alfaiate, dado ter caído em desuso desde a última guerra em que o estado se meteu; só temos este número que é medida única, igual para todos, mas sempre podes usar os teus sapatos que ninguém vai olhar a isso. Perguntei se poderia colocar uma flor amarela no chapéu. O homem respondeu-me que poderia fazer o que quisesse. À saída do grande edifício de mármore colhi uma flor no primeiro canteiro que encontrei e espetei-a na tira do chapéu. Vesti a farda ali mesmo, na rua, à frente de toda a gente que me ia felicitando pelo facto de ter aceitado ser funcionário do estado. Eu ia partir para aquele sítio que poderia não ter querido conhecer., não estava nem feliz, nem triste. Estava estranho como se estranha uma coisa nova de que se desconfia.
Passei ainda pelo quartel de cavalaria que empregava todas as raças de cavalos do estado. Apresentei na porta de armas as minhas certidões e mandaram-me esperar na parada. Os cavalos pareciam gozar ali de uma especial liberdade. Enquanto uns fumavam, outros jogavam aos dados, e alguns copulavam livremente com éguas que me disseram ser suas irmãs de sangue, para que nada se perdesse na estranheza das linhagens e degenerescências imprevistas. Foi-me dado um cavalo, a sua companheira, um saco de fava e outro de cevada, uma sela e alguns alforges de atrelar à sela. Disseram-me que o estado não podia fornecer mais ração para além da que me era dada e que, por motivo algum, poderia eu comê-la na vez dos cavalos, sendo esse acto considerado matéria de crime e punível no termos da Lei. Tendo eu entendido tudo, montei o animal que pareceu mais dócil e a passo ligeiro partimos os três para a função de guarda-nuvens e contador de bandos de pássaros.
Ao fim de vários dias de viagem o cavalo em que seguia montado morreu subitamente. A égua inconsolável seguiu-lhe o destino à entrada do castelo por pura mofina. Os dias passaram-se quase iguais até aqui, eis-me no vale desde então.

About JMGervásio

Sou pessoa alta, magra por criação, amante de velocípedes e de quase tudo que implique não fazer à segunda - quero dizer, sou do tipo espontâneo. Licenciado em altos estudos artísticos na ESBAP, tenho, desde lá, desenvolvido uma certa tendência para o comércio a retalho e agricultura de terraço. Possuo momentos de grande felicidade e civilidade que nem sempre são devidamente apreciados.

9 thoughts on “Cartas do vale #8

      1. Um soldado da contemplação…

        O meu bom amigo quando quiser broa e azeitonas, é só pedir.

        Eu por cá é o que vou comendo nos crespúsculos mais longos…

        Um abraço e até breve.

    1. O meu canto é simpático, é um refúgio, é sim senhor. E tenho malgas e cadeiras, e posso fazer um pão cheio de coisas boas lá dentro. É uma questão de combinarmos. Mas o meu vale, na realidade, existe cá dentro da cabeça. Mas tenho um belíssimo terraço que vale o que vale. :-) um abraço.

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