Exorcismo ao Bloco de Esquerda (ou como a direcção do BE está refém da sua própria estratégia política)

Ano após ano desde a sua fundação o triunvirato da direcção do BE e os seus independentes mais destacados acordaram numa estratégia que visava promover tudo quanto fosse figura que deixasse o PS nervoso e que, de alguma maneira, representasse a capacidade deste partido em seduzir os sectores da sua tão fadada ala esquerda. O mesmo se passava com a política. Quanto maior a nebulosa, maiores as possibilidades. Tudo o resto era secundário. Da construção do partido fora das fronteiras das grandes cidades até à criação de processos que aproximassem o BE das ruas e o mantivessem imune às instituições. Da construção no mundo sindical à participação em efectivos movimentos de base. Nada. Ano após ano o debate redundava a discutir listas de nomes ora para o congresso ora para a roleta eleitoral, escolhas que eram feitas em cima de critérios políticos oblíquos que justificavam as escolhas que já tinham sido previamente acordadas.

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O resultado está à vista. Com o anúncio de mais uma cisão, desta feita a do Fórum Manifesto (Política XXI), a lista do Livre às próximas eleições legislativas arrisca-se a ter, nos quatro primeiros lugares, quatro social-democratas produzidos pela direcção do BE, órgão que teve sempre uma maioria blindada pela vontade do PSR e da UDP – os únicos, portanto, com garantias de que tudo o que acontecesse acontecia com a sua vontade. A par das figuras, a política. O programa do Livre, de resto, será muito parecido com aquilo que o BE sempre defendeu, exactamente pelos mesmos motivos com que promovia as personalidades políticas dispostas a bailar este fandango.

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A encruzilhada agora é absoluta e, provavelmente, irremediável. Como partido de protesto não servem porque não dizem o que tem que ser dito nem dão sinais de que vão passar a fazer o que devia ser feito. Como partido de governo também não porque há quem, criado por si, com mais condições para capitalizar o oportunismo. Assim, na boca de cena, cada grito do BE contra o Fórum Manifesto é, por força de razão, um grito contra a política que sempre alimentou, praticamente sem contraditório, até chegar aqui.

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3 thoughts on “Exorcismo ao Bloco de Esquerda (ou como a direcção do BE está refém da sua própria estratégia política)

  1. O Renato bem tem esgotado este tema e com alguma razão(por vezes). Só não entendo pra quê, meter o dedo na ferida? Pra quê?! Eles fazem isso melhor que ninguém, é uma pena ver o BE mais decadente que o CDS, será que lhe sobrevive?

    1. As feridas são, boa parte delas, auto-infligidas. Meter o dedo, como lhe chamas, é a única maneira que vejo que abre caminho a que não se insista na via da mutilação. Quanto ao Futuro tenho dúvidas. Em todo o caso o BE pode bem cristalizar como o partido do tuk-tuk, já que o outro cristalizou como partido do taxi. Num caso e no outro há quem ache isso satisfatório. Imagina-se porquê.

  2. “Ano após ano desde a sua fundação o triunvirato da direcção do BE e os seus independentes mais destacados acordaram numa estratégia que visava promover tudo quanto fosse figura que deixasse o PS nervoso e que, de alguma maneira, representasse a capacidade deste partido em seduzir os sectores da sua tão fadada ala esquerda.”
    A propósito de exorcismos.Resta-nos resistir,ouvi isto da boca de Cunhal no fim de uma conferência ainda no século passado pergunto-me porque diabo isto me ocorre-
    o Mao dizia que nos momentos de refluxo devíamos estar atentos aos desvios de direita e nos de fluxo aos de esquerda- avancemos a ala esquerda do ps não existe e o que qualquer esquerda consequente faz é tornar isto claro demarcando-se do malabarismo interclassista numa fase em que o capitalismo se prepara para dispensar o próprio estado de direito democrático o interclassismo é um mal nas mãos dos populismos emergentes…à esquerda a mobilização é anti-capitalista coisa que o ps não é pelo que um combate à esquerda tem de fazer-se sem ele não com ele,pode parecer paradoxal mas uma esquerda grande para existir faz-se sem o ps.

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