Demografia e dominação de classe

Fundamentação de uma teoria e algumas conclusões

"tenho sempre tempo para a minha família. O que mais gosto na vida é de estar com os meus filhos. Às segundas e sextas-feiras saio mais cedo e dedico-lhes essas tardes. Aliás, sou viciada nos meus filhos. (...) Estamos a pensar ter mais um filho, mas não para já. (...) Vamos esperar mais um bocadinho. Mas acho que vamos ter é outro rapaz! (...)Gostamos de dar tudo aos nossos filhos e acredito que é bom eles sentirem-se mimados. Mas só recebem quando merecem. E é ótimo vermos os nossos filhos felizes. "
“tenho sempre tempo para a minha família. O que mais gosto na vida é de estar com os meus filhos. Às segundas e sextas-feiras saio mais cedo e dedico-lhes essas tardes. Aliás, sou viciada nos meus filhos. (…) Estamos a pensar ter mais um filho, mas não para já. (…) Vamos esperar mais um bocadinho. Mas acho que vamos ter é outro rapaz! (…)Gostamos de dar tudo aos nossos filhos e acredito que é bom eles sentirem-se mimados. Mas só recebem quando merecem. E é ótimo vermos os nossos filhos felizes.” Ágata Roquette

Introdução

A minha tese sobre a expressão da dominação de classe num plano biológico e genético, ou seja, na demografia, foi acusada por um comentador de carecer de fundamentação ‘estatística’. Se regresso à dita teoria neste post é precisamente para procurar dar-lhe alguma da validade sociológica de que ela – que até aqui assentava apenas sobre dados empíricos – carecia. Vou fazê-lo de duas formas:

  1. Recorrendo a dados do I.N.E. que comprovem estatisticamente aquilo que já todos sabemos: que no grosso da população portuguesa a fecundidade e a natalidade estão a decair fortemente;
  2. Recorrendo a dados do Geneall.net (a única fonte que tenho disponível para perceber ‘estatisticamente’ o que se passa nas classes que administram e dirigem a economia) que comprovem a tendência crescente para ser hoje mais fácil encontrar famílias numerosas, já não na base ou no meio, mas no topo da pirâmide social.

 1) Dados do I.N.E.

Comecemos pelos dados mais recentes do I.N.E. sobre demografia, sintetizados nas conclusões dos Censos2011:

(…) “a percentagem de famílias com mais de cinco pessoas diminui expressivamente, representando, em 2011, somente 2% das famílias clássicas, por comparação com 17,1% em 1960”.

(…) “o número de ‘casais sem filhos’ tem vindo a aumentar, em resultado do adiamento da parentalidade e do envelhecimento populacional”.

(…) “Dentro dos núcleos de casais destaca-se a diminuição do número de casais com filhos e o aumento do número de casais sem filhos. Se em 1991 os casais sem filhos constituíam 32% do total de casais, em 2011 o seu peso era de 41%, o que corresponde a um aumento de 9 p.p. Estes núcleos aumentaram em todos os grupos etários, mas a sua variação é maior nos grupos etários mais jovens (até 29 e 30-39 anos de idade), o que indicia o adiamento da parentalidade.”

(…) “Em relação ao número de filhos, aumentaram os casais com um filho, representando atualmente mais de metade das situações; diminuíram os casais com três ou mais filhos”. 


2) Dados do Geneall.net

Através da consulta desta base de dados sobre informação genealógica, procurei estabelecer o número de filhos que possuem alguns membros (aleatoriamente escolhidos) de famílias directamente ligadas à posse ou à gestão dos meios produtivos ou do crédito bancário. Recolhi informações sobre parentalidade de um nano-universo de quase 2 dezenas (não tive pachorra para mais) de portugueses ricos e casados, com mais de 42 anos, tirados completamente ao acaso da árvore genealógica dos Donos de Portugal.

Os filhos de Ricardo Espírito Santo, Vice-Presidente do Conselho de Administração do BES:

  • Ricardo Espírito Santo B. Salgado (n. 1971) – 3 filhos
  • Catarina Espírito Santo S. Salgado (n. 1971) – 2 filhos

Os filhos de Manuel Ricardo do Espírito Santo, ex-Presidente do Conselho de Administração do BES:

  • Mafalda Moniz G. do Espírito Santo Silva (n. 1955) – 3 filhos
  • Madalena Moniz G. Espírito Santo Silva (n. 1957) – 4 filhos
  • Manuel Fernando Moniz G. Espírito Santo Silva (n. 1958) – 3 filhos
  • Fernando Manuel Moniz G. Espírito Santo Silva (n. 1963) – 3 filhos

Os filhos de José Roquette, conhecido empresário:

  • Maria Joana de M. Holtreman Roquette (n. 1962) – 4 filhos
  • André Maria de M. Holtreman Roquette (n. 1964) – 2 filhos
  • Maria Benedita de M. Holtreman Roquette (n. 1965) – 4 filhos
  • Maria Madalena de M. Holtreman Roquette (n. 1967) – 4 filhos

Os netos de António Champalimaud, outrora o homem mais rico do país:

  • Mariana Champalimaud L. (n. 1970) – 3 filhos
  • Mafalda Maria Champalimaud L. (n. 1970) – 2 filhos
  • Maria Cristina Champalimaud L. (n. 1968) – 4 filhos
  • Francisco Maria Champalimaud Daun e L. (n. 1968) – 3 filhos
  • Marta Maria A. de Mello Champalimaud (n. 1967) – 4 filhos
  • António Francisco A. Champalimaud (n. 1969) – 3 filhos 

Os filhos de Isabel Lima Mayer (viúva do ex-Ministro do Estado Novo e ex-Presidente do CDS Adriano Moreira), pertencente a uma influente família do capitalismo português:

  • António de Lima Mayer A. Moreira (n. 1969) – 3 filhos
  • Mónica Maria de Lima Mayer A. Moreira (n. ?) – 5 filhos
  • Nuno de Lima Mayer A. Moreira (n. ?) – 3 filhos

Síntese destes dados: Sem filhos – 0 (0%) / Com um filho – 0 (0%) / Com dois filhos – 3 (16%) / Com três ou mais filhos – 16 (84%) / Média: 3,26 filhos por casal


Algumas conclusões

"A harmonia de Bibá Pitta e Fernando Gouveia. Foi na companhia dos filhos que a relações-públicas e o médico cirurgião contaram como a família lida com a exposição pública."
“A harmonia de Bibá Pitta e Fernando Gouveia. Foi na companhia dos filhos que a relações-públicas e o médico cirurgião contaram como a família lida com a exposição pública.”

A observação do I.N.E. de que em Portugal “diminuíram os casais com três ou mais filhos” contrasta radicalmente com os dados que se podem extrair da minha fugaz viagem à genealogia das famílias que gerem dinasticamente a economia deste país, onde a média por casal supera os 3 filhos – para o grosso da população portuguesa esta média é de 1,35. Manuel Ricardo do Espírito Santo conta assim com pelo menos 13 netos, José Roquette com 14. António Champalimaud, se fosse vivo, contaria com não menos de 19 bisnetos. Elísio Soares dos Santos, presidente da Jerónimo Martins, que eu não incluí nesta minha limitadíssima (mas conclusiva) incursão pelo Geneall.net, tem 15 netos.

Uma conclusão elementar decorre disto tudo: nos países ‘desenvolvidos’, a classe dominante encontrou a fórmula perfeita (sem derramamento de sangue) para gerir e controlar os ritmos biológicos de multiplicação de pobres [uso nest texto o termo ‘pobres’ num sentido razoavelmente amplo, referindo-me a quem está privado do acesso aos recursos produtivos, logo, exclusivamente dependente do trabalho – quando não das esmolas da Seg. Social, Banco Alimentar, etc. – para sobreviver] com quem concorre pelo domínio e ocupação do território (por exemplo: quanto menos pobres nas cidades, maior a área dos condomínios privados, ou, quanto menos pobres nas aldeias, maior a área dos resorts) – essa fórmula perfeita passa por eliminar as condições económicas que subjazem à sua fecundidade. (É sabido que a imigração vem colmatar esta baixa natalidade, mas, igualmente sujeita a um crivo apertado, ela é hoje insuficiente para fazer com que o número de pobres se multiplique.)

À estagnação na fecundidade dos pobres, os ricos respondem com uma fertilidade impressionante, equivalente àquela que os pobres tinham nos longínquos anos 60. Ora, isto só é possível pelas desigualdades cada vez mais estruturais na economia, que concentram os recursos no estrato da população que administra todos os processos económicos e redistribui os proveitos dos lucros e das rendas por familiares e amigos. E é justamente nesta administração que está a chave do sucesso da eugenia social: por um lado, escravizam-se os assalariados (obrigados a dar tudo pelo projecto individualista da ‘carreira’) com técnicas absolutamente novas (derivadas de todo um saber acumulado sobre ‘gestão de recursos humanos’); por outro, substituem-se por máquinas trabalhadores tornados obsoletos, logo, supérfluos para o sistema económico.

Com os mais recentes avanços na mecanização da economia (que em vez de vir libertar a humanidade do trabalho veio empurrá-la massivamente para a miséria), são agora necessários muitíssimo menos pobres para que esta funcione (em proveito dos ricos). Logo, há pobres a mais, que terão de digladiar-se por um posto de trabalho e, muito importante, multiplicar-se de modo regrado, em equilíbrio com os parcos recursos que a economia lhes disponibiliza (em equilíbrio também com as enormes exigências que lhes são impostas, sob a forma de impostos, tarefas ‘fora’ do trabalho, etc.).

E, se noutro tempo os pobres, quando não eram assimilados pela economia formal, eram livres de inventar mil e um biscates para sobreviver, hoje a economia ultra-liberal estende as suas redes tirânicas de domínio e vigilância a um raio cada vez maior, reduzindo drasticamente a margem daqueles para criar um pequeno ganha-pão, como já mostrei aqui ou aqui. Os pobres estão agora mais dependentes do que nunca das migalhas, cada vez mais racionadas, que a economia lhes liberta. Daqui emerge uma verdade elementar do nosso tempo: ESTÁ EM MARCHA UM PROCESSO DE PURIFICAÇÃO ‘SOCIAL’ DA ESPÉCIE HUMANA. (E, muito provavelmente, o leitor deste post é, tal como eu, uma das suas inúmeras vítimas!)

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

8 thoughts on “Demografia e dominação de classe

    1. Caro idiota, parece que não leu o meu texto, mas como é idiota eu REPITO uma passagem importante:

      “Recolhi informações sobre parentalidade de um nano-universo de quase 2 dezenas (não tive pachorra para mais) de portugueses ricos e casados, com mais de 42 anos, tirados completamente ao acaso da árvore genealógica dos Donos de Portugal.”

      Leu agora? “Portugueses casados com mais de 42 anos”. Foram esses, e apenas esses, os filhos de Isabel Moreira que a esta análise interessaram.

  1. É preciso não abrir a televisão para não saber que o ex estadista do ultramar esta vivo isabel Mayer Moreira não é viúva e sim isso é uma idiotice tremenda !

    1. Caríssimo idiota, para o texto em apreço interessa mesmo muito pouco o lapso do ex-ministro fascista (91 anos) ainda não estar sepultado (ouvi há dias uma entrevista a uma filha que falou dele sempre no passado, daí o imperdoável lapso…). Os dados estatísticos que sustentam a tese do post mantêm-se inalteráveis. (Não tem mais nada a comentar para lá da gafe?)

  2. Quando a seu erro se baseia no facto de ter ouvido a filha de Adriano Moreira a referir-se ao próprio “sempre no passado” o “”estudo”” perde alguma credibilidade.

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