Porque é que desta vez não vou “botar o voto”?

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Paris, Quartier Latin | 2014 – “Entre! Nós temos aquilo que você não procura…”

A chantagem é cada vez mais arrasadora e o grande debate das próximas eleições europeias passou a ser a abstenção. As 16 candidaturas que estão a ir a votos, todas sem excepção, já atacaram a abstenção, curiosamente sem contrapor nenhum dos pontos dos seus programas políticos ou razões pelas quais vale a pena votar nestas eleições, mas proferindo toda a espécie de impropérios sobre quem tem boas razões para desconfiar das alternativas. Todos se contradizem a si próprios e todos têm responsabilidades na descrença que se parece ter instalado.

Incapazes de mostrar que um voto em si provocará um sobressalto maior do que o recorde que se adivinha em matéria de abstenção, votos brancos e nulos, limitam o seu debate a um conjunto de frases feitas que variam entre a inocuidade e o absoluto disparate. Num momento acusam quem não escolhe nenhuma das 16 quadrilhas a sufrágio de estarem a prescindir de participar num acto para, no momento seguinte, responsabilizar esses mesmos “abstémios” de serem os responsáveis pelo resultado final. Nenhum apresenta nada mais poderoso do que o susto de uma abstenção história e escondem, até onde podem, que cada uma das 16 candidaturas avançou apenas pela defesa da sua coutada e não por qualquer sobressalto cívico.

Com que opção de voto, precisamente, se garante um tremor de terra superior aos prováveis 70% de abstenções e aos 100 ou 200 mil votos sem destino? Com quem quer pagar uma dívida por mais 20 anos como sugere o PCP? Com quem, como o BE, diz que “não somos dívida” ao mesmo tempo que a quer renegociar e eternizar os juros? Com qualquer uma das pequenas candidaturas que trocou a unidade pela promoção pífia das suas obsoletas figuras públicas e por programas mais populistas do que qualquer Beppe Grillo à lusitana?

Estas eleições eram uma oportunidade para derrotar a troika e quem abriu mão disso, por protagonismo, euros e aparato, não foram aqueles que desta feita não irão participar no circo. O argumento que sobra, mesmo àqueles que já nem arriscam uma palavra pela defesa dos projectos, é o claustrofóbico “mais vale pouco que nada”. Entre os adeptos dos remendos e côdeas não há uma linha programática que os excite e nenhum avança uma única razão pela qual um voto em qualquer um dos partidos terá mais impacto do que as costas voltadas de centenas de milhares de eleitores.

Como não há nenhuma possibilidade de voto classista quem for entregar o voto vai apenas cumprir um acto de fé desprovido de qualquer significado. Se reconhecemos que não há alternativas e simultaneamente vamos votar numa das propostas que estão no boletim, estamos a dar um voto de confiança aos que, não apresentando nenhuma solução, são uma parte significativa do problema pois tudo têm feito para que assim as coisas continuem. Resumir o debate eleitoral a uma caricatura falaciosa, usar a chantagem como arma de convencimento, é, se factos faltavam, a prova dos nove da miséria política dos que se apresentam a votos.

Nas próximas eleições a esquerda terá menos de 30% dos 30% que vão a votos e dificilmente ultrapassará sequer o meio milhão de votos e os partidos da austeridade não terão consigo a maioria absoluta dos eleitores. O sobressalto virá, portanto, de outras formas de expressão eleitoral. Será a primeira vez, em 16 anos de eleitor, que não irei às urnas. Já votei BE, CDU e MRPP mas desta vez optei por não “botar a cruz”. Não por achar que fora dela está uma solução milagrosa mas porque parece cada vez mais evidente que o aparecimento de verdadeiras alternativas só será possível depois de levar à ruína a actual geografia eleitoral.

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Conversa banal e já algo aborrecida entre um Voteman ou Women e alguém que pensa ir votar branco, nulo ou abster-se:

VOTEMAN/WOMEN – O sistema está perfeitamente preparado para o teu não voto. Assim és completamente irrelevante e incapaz de transmitir uma mensagem política, seja de protesto seja do que for. És absolutamente inócuo e desprovido de sentido. Um nada eleitoral. 

75% DOS POVOS DA EUROPA  Pois mais eu acho que a farsa dificilmente vale mais do que um dia de praia, não há alternativas a votos e mesmo que lá vá devo ou deixar o boletim em branco ou mandar tudo e todos dar a volta ao bilhar grande.

VOTEMEN/WOMEN – Mas tu estás louco?!?! Tu assim estás a colocar tudo em causa!!! Isso não é classista nem democrata!!! Isso vai ajudar imenso os que já lá estão!!!! Isso é praticamente fascista e assim seremos incapazes não me lembro bem do quê. O Manel em Bruxelas vai fazer trabalho, mudar o mundo, verás!!! Reconsidera lá isso!!!

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2 thoughts on “Porque é que desta vez não vou “botar o voto”?

  1. As pessoas comuns, povo, eu inclusive, no repeitante a voto. A ir votar, vou. Estão cansadas de tantas promessas, mentiras, roubo e sem que haja feita justiça, apesar de tudo indicar que tenha havido roubos. Pensam: votar em quem? É tudo a mesma tralha. Também é um facto que se vê deputados, passarem da esquerda para a direita e vice
    versa, caso Zita Seabra, aquele do CDS Freitas do Amaral, foi Ministro, correu tudo da ditreita ao PS. Só falta mesmo o PCP. O que é isto? Nao é só pelouro, poder, que querem? O desespero do povo e a falta de credibilidade dos politicos desanima qualquer um.

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