Sobre a Passagem de Alguns Milhares de Pessoas por uma Praça a 2 de Março de 2013

Faz hoje um ano que uma multitudinária manifestação contra o governo e a Troika encheu Lisboa e o Terreiro do Paço com largas dezenas de milhar de pessoas. A ocasião era importante: após os incidentes de 14 de Novembro de 2012 o movimento voltava a manifestar-se e reassumia o propósito de fazer o governo cair pela rua, procurando construir com a sua presença multitudinária uma legitimidade política que obrigasse a novas eleições.

Image

Em si a manifestação foi um momento estranho porque desde logo esteve patente uma descontinuidade com a inspiração occupy/15m das mobilizações anteriores. Pessoas que um ano antes achavam estranho que num evento da Unipop se falasse a partir de um palco seguravam agora cravos ante dezenas de milhares de pessoas, sem se saber muito bem porquê ou para quê. A fantástica campanha de “grandolagem” de vários membros do governo terminou numa manifestação silenciosa em que apenas esses momentos de extrema galvanização emocional – as canções e os discursos – conseguiram arrancar algum som à multidão reunida. Apesar da gigantesca capacidade mobilizadora o 2 de Março de 2013 representava um retrocesso em relação à série de manifestações inaugurada com o 15 de Setembro de 2012, também organizada pelo Que se Lixe a Troika, já que fazia com que a rua regressasse a um guião meramente institucional, e consequentemente, deixasse de ter relevância política. Ao contrário do que supõe a vangloria militante, a concentração de milhares de pessoas não implica necessariamente uma sua natureza constituinte; neste caso tornou-se precisamente num lamento, algo que se torna explícito perante a consciência de que esse evento foi extremamente capaz na produção de momentos galvanização emocional – as grândolas por exemplo – mas extremamente incapaz na produção de momentos políticos.

A ocasião representou o esgotamento do QSLT, que ainda organizaria mais duas manifestações, a última com um número considerável de pessoas mas muito aquém das mobilizações anteriores. Nos meses seguintes sucederam-se artigos, no jornal I e na revista Vice, que com motivações e qualidades diferentes punham a nu o carácter palaciano do colectivo e o modo como a influência partidária dentro dele tinha marcado a sua formação, as suas decisões e os seus processos de alargamento, algo fortemente contestado pelos membros do colectivo, mas que um ano depois até João Semedo admitia numa entrevista.

A uma distância ainda não segura mas já suficiente, e sem pretender fazer aqui uma leitura moral de escolhas políticas, o QSLT representou a tentativa de reconduzir a efervescência política que grassava nas ruas ao programa da esquerda institucional. Teve nisso uma vitória pirríca já que conseguiu ganhar a rua, através de uma gestão cuidada das suas problemáticas, esgotando a energia que nela se vinha acumulando. Pelo caminho produziu alguns momentos intensos, mas todos ainda referentes a esse terreno dúbio e turvo em que a mensagem política se confunde com a declamação emocional, algo problemático já que o necessário eram instrumentos de capacitação e intervenção política e não views no youtube e partilhas no facebook. Seria no entanto intelectualmente desonesto presumir que a diminuição da rua enquanto elemento político se deveu unicamente ao QSLT e aos seus bastidores – a parte do movimento que se viu vetada do QSLT ou que por natureza política se posicionou contra ele não soube marcar uma diferença, acabando por andar meio desnorteada a reboque destas mobilizações.

O ressurgimento da rua enquanto factor político em 2011 foi uma carta nova no panorama da esquerda autóctone. A sua capacidade mobilizadora foi-se esgotando mas serão no entanto as realidades produzidas nessas ruas que irão marcar a agenda nos próximos anos, porque foram fundamentalmente essas experiências a formar subjectividades militantes e não os anteriores enquadramentos institucionais. Enquanto factor novo faltou-lhe a capacidade de sistematizar ferramentas e métodos de discussão e como tal foi facilmente reconduzida à agenda da esquerda institucional com as consequências presentes: o reforço do PCP e a crise do BE, capturado por uma série de quadros aparelhistas e medíocres. O “movimento”, essa sinergia que primeiro mostrou a cara na praça do Rossio, terá de enfrentar então a sua travessia no deserto.

Há menos de um mês um texto de Giorgio Agamben lançou uma discussão interessante: O poder que procuramos construir deverá ser constituinte ou destituinte? Ou seja, devemos organizar-nos para construir novas instituições democráticas que consigam superar as antigas ou, pelo contrário, devemos organizar-nos para desarmar as formas e os dispositivos de poder e a partir de ai repensar o político? O grande falhanço do QSLT e do 2 de Março foi terem ignorado este debate latente e recolocado a sua mobilização dentro da terceira hipótese, não dialéctica, de um poder “restituinte”, ou seja, de uma mobilização que se desse exclusivamente pelo fortalecimento dos canais participativos institucionais. Ora precisamente por esses canais estarem já previstos, e serem alvo de uma gestão cuidada por parte do poder, é que não possuem qualquer poder constituinte. Qualquer proposta de soberania real deverá partir da organização de um estado de excepção – porque é essa a real marca do poder – e não do mero testemunho da indignação, da raiva ou da frustração. É precisamente sobre o falhanço da hipótese cidadanista ou restituinte que devemos reflectir neste chuvoso domingo, um ano depois do 2 de Março, uma semana depois do triunfal congresso do PSD e uns meses antes da saída totalmente incólume da Troika.

7 opiniões sobre “Sobre a Passagem de Alguns Milhares de Pessoas por uma Praça a 2 de Março de 2013

  1. Boa análise Inclusive na alusão aos falhanços de quem se opôs à forma de organização adoptada pelo QSLT. Algumas ideias avulsas:
    1. as mobilizações de 2011 resultaram de uma combinação peculiar de acontecimentos externos com uma subita mistura interna de esquerda autoctone com elementos de matriz anarquista e alguns “bem intencionados” (de onde parece sempre vir a força).
    2. Em 2011 a menor proporção de “bem intencionados” e a sua manifesta pouca formação política, marca a diferença em relação ao sucesso do movimento em Espanha e justifica em parte a sua (des)evolução ao longo de 2012. A sociedade civil portuguesa nunca chegou a abraçar o rossio como a espanhola abraçou as acampadas.
    3. O desnorte pré-15 de Setembro deriva precisamente da elevada proporção de elementos partidários e partidarizados relativos aos anti-partidários e não-partidarizados.Quando os primeiros se desmotivaram ou sairam a estimular o 15 de Setembro, não sobrou nem credo nem capacidade organizativa suficiente do outro lado para continuar uma alternativaque tinha vindo a perder alguma força.
    4. Parece-me que o 15 de Setembro já consagrou o retrocesso organizacional e a ruptura com as práticas anteriormente advogadas que apontas ao 2 de Março. Quanto a mim, o 15S foi uma manifestação institucional que, sendo dotada de um discurso vazio (mascarado de utópico), acabou subitamente desinstitucionalizada com a subita adesão popular. E, pior, teve enorme sucesso o que levou a meses de tentativa de repetir a receita que apenas aprofundaram a clivagem com o passado ao nível das práticas adoptadas. Este sucesso não é nem mais culpa dos organizadores do que sua responsabilidade o número elevado de pessoas que saiu à rua nessa data.

  2. Bem observado. O caráter identitário do QSLT, da sua castração política que nunca perdeu é um reflexo da mania de que uma vanguarda conduzirá o povo ignaro ao Shangri-La. Esse reacionarismo verificou-se também no Congresso das Alternativas e na IAC que desembocou na entrega de uma petição na AR a pedir ao governo a criação de um instituto para fazer a auditoria das contas públicas… É como quem pede ao ladrão para avaliar o valor do roubo.
    De toda essa falta de demarcação face à esquerda do sistema, nem esta aumenta a sua participação no pote, o movimento sindical é cada vez mais débil e, pior que tudo isso, do lado esquerdo de fora do sistema está tudo disperso
    Sobre o vosso tema

    http://grazia-tanta.blogspot.pt/2012/11/os-movimentos-sociais-e-as-vigarices.html

  3. Discordo dessa análise por várias razões:

    a) Ela não reconhece as implicações que o 2 de Março teve. Estiveram aquém dos meus desejos, é certo, mas estiveram além das expectativas razoáveis.
    Não só ao nível da participação (que o autor justamente reconhece “Apesar da gigantesca capacidade mobilizadora “), mas também ao nível das consequências: um Governo com maioria parlamentar e protegido para além do razoável pela Presidência da República, e com sondagens que nunca ultrapassaram os mínimos históricos dos partidos que dele fazem parte, esteve à beira de cair, e a isso não foi alheio o facto de terem acontecido num espaço de meses as duas maiores manifestações desde há décadas.

    b) Os “artigos” de que o autor fala não punham a nu um suposto “carácter palaciano do colectivo” coisa nenhuma.
    Na verdade, o título do artigo do i era contradito no corpo do mesmo, denunciando a diversidade e pluralismo que o título pretendia negar. Pena que as pessoas se fiquem pelos títulos…
    É verdade que o grupo não foi constituído numa “lógica” de “quem quiser pode entrar”, como N grupos não são, e por muito boas razões.
    Já vi muitas actividades “sabotadas” porque – ao permitirem a entrada de quem quer que queira participar – atraem um conjunto de pessoas que se adora ouvir, ou encontrar conflitos nos mais ínfimos detalhes, atraídas pela oportunidade de satisfazer estes desejos, efectivamente sabotando o esforço colectivo melhor que qualquer “agente profissional” que fosse contratado para espalhar a confusão e a ineficácia.

    A organização do 2 de Março, atendendo ao facto de ter envolvido horizontalmente mais de 100 pessoas, foi de uma eficácia TREMENDA.
    Eu bem me lembro de, quando foi para organizar a “Primavera Global” ter passado uma tarde inteira e todas as horas disponíveis na “Fábrica do Braço de Prata” a escolher o Cartaz!!
    Ficou por decidir quase tudo, e e um esforço de decisão e acção muito superior ao do 2 de Março resultou numa participação e impacto dezenas/centenas de milhares de vezes inferior.

    O que aconteceu é que muitas destas pessoas que adoram implicar por detalhes ínfimos, em vez de moderar um pouco o ego e aprender a trabalhar em conjunto, ficaram todas ressabiadas por não terem sido convidadas. E vai daí, “ó tio ou tio, o QSLT é palaciano”. Verdade seja dita que muitas pessoas do QSLT também se opunham a esta suposta “falta de abertura”, e sensibilizado pelas críticas dos ressabiados, o QSLT passou a ter reuniões abertas para organizar as manifestações seguintes.

    Estou em crer que foi isso (e um certo cansaço natural), e não supostos erros no 2 de Março, que diminuiu significativamente a eficácia das acções que se seguiram.

    c) Também discordo deste ponto: «o QSLT representou a tentativa de reconduzir a efervescência política que grassava nas ruas ao programa da esquerda institucional»
    Não, não representou. O autor farta-se de criticar a “indefinição” do QSLT e das suas acções, sem compreender que essa indefinição foi um preço a pagar pela convergência, e com isso a abrangência e força do movimento.
    Estou de acordo que uma “massa” de tamanho X com objectivos claros e definidos tem muito mais força e impacto político que uma “massa” do mesmo tamanho com objectivos vagos de “menor denominador comum”. O autor, e outros, pensam então que os objectivos deveriam ser discutidos até ficarem claros e definidos, porque eventualmente todos irão concordar em relação aos objectivos “certos” e aí terão muito mais força.
    Mais isto corresponde um enorme equívoco: as pessoas não vão concordar em relação aos objectivos “certos”: um trotskista vai sempre discordar do anarquista, que vai sempre discordar do militante do PCP, que vai sempre discordar de quem acredita na economia de mercado (cerca de 80% dos portugueses).
    Assim, as opções disponíveis não são uma massa de tamanho X com objectivos claros ou vagos: são uma massa de tamanho X com objectivos vagos, ou uma massa de tamanho X/10000 com objectivos claros e concretos.
    Ou seja: o QSLT era plural, e comportava pessoas revolucionárias e reformistas, tentando encontrar um “chão comum” (estar contra o extremismo da austeridade), e aceitando várias perspectivas diferentes – uns preferiam vias institucionais, outros não.
    Este ponto é particularmente irónico por uma razão: o autor menciona acima “Pessoas que um ano antes achavam estranho que num evento da Unipop se falasse a partir de um palco” como se essas pessoas fossem representativas do QSLT. Tudo bem, até tinham um impacto significativo no movimento (virtude do entusiasmo, dedicação, etc.. com que participavam). Mas estas mesmas pessoas faziam tudo para evitar que “a efervescência política que grassava nas ruas” fosse um mero reforço do “programa da esquerda institucional”.
    Portanto o autor que se decida: estas pessoas e as suas ideias eram relevantes dentro do QSLT, ou não?

    Concluindo:
    A manifestação de 2 de Março, e tudo o que a antecedeu, foi um dos maiores sucessos do activismo (a nível de adesão e impacto) desta legislatura (apenas ultrapassada pela manifestação de 15 de Setembro) e não só.
    É irónico que um texto dedicado a explicar “o que falhou” acabe por responder à pergunta nas entrelinhas: é esta atitude, este tipo de leituras, este tipo de dificuldade em criar convergências, em lidar com o pluralismo, a facilidade em aceitar “artigos” que se contradizem como fonte adequada, este autismo de acreditar que seria possível uma multidão de milhões de portugueses de o objectivo fosse inequivocamente anti-institucional (se isso seria desejável é outra discussão..), etc., que explicam as dificuldades do activismo em Portugal.

  4. respondendo por ponto:

    a) Que o governo esteve à beira de cair é extremamente subjectivo. Caiu? não pois não? Creio que esteve muito mais próximo de cair precisamente no período entre 15 de Setembro e 14 de Novembro

    b) É falso que os vetos de participação no QSLT tenham sido por questões práticas – muitos foram essencialmente políticos. Há nesse entendimento um certo revisionismo, já que uma série de pessoas que sempre participaram em movimentos unitários e sempre se organizaram numa perspectiva de menorização de questões de ego e de identidade ideológica foram vetadas. Terá estado presente essas questão, com legitimidade? sem dúvida. Mas isso tb não desdiz a influência partidária. Acho muito bem que pessoas de partidos políticos participem no que quiserem e acho que ser militante da organização X em nada diminui uma pessoa, a honestidade dos seus contributos ou o que quer seja. Acho menos bem quando são os interesses da organização X a dominar uma perspectiva colectiva.

    c) O Autor, ou autora, do comentário não sabe patavina de que moldes assume ou não a minha participação no “activismo” portanto não sabe nada da minha politica de convergências ou de falta delas. Em nenhum momento deste texto afirmo que o QSLT devia ter uma única linha ou deixo pistas para qual seria essa linha justa. De resto há bastantes textos meus neste blogue que deixam totalmente explicito o que penso ou deixo de pensar sobre a autofagia identitária da esquerda e dos movimentos. Que sempre que se faça uma crítica a resposta surja em moldes “pelo menos fez-se alguma coisa” apenas demonstra a pertinência das críticas feitas.

    O governo continua em poder, a austeridade continua e o movimento está letárgio – exactamente em quê é que essa manifestação foi um sucesso? foi efectivamente um evento multitudinário com uma produção espantosa, que deve ter sido emocionalmente intensa para quem o organizou. No entanto qualquer balanço dele POLÍTICO e não moral, emocional, produtivo ou “activista”, demonstra que não teve consequências POLÍTICAS de relevo – Não produziu eventos, não produziu organização.

    1. a) “Que o governo esteve à beira de cair é extremamente subjectivo. Caiu? não pois não?”
      Claro que é subjectivo. Mas há algo mais subjectivo do que avaliar o “sucesso” de uma manifestação? Mesmo que o governo tivesse caído, alguém com critérios mais ambiciosos poderia dizer que tinha sido um insucesso porque ainda não se tinha implementado um sistema/sociedade que considerasse mais adequados.
      Objectivamente demitiram-se dois ministros muito importantes (Relvas e Gaspar) e criou-se uma crise política (a demissão “irrevogável” de Portas). Subjectivamente poder-se-á considerar que a isso não foi alheio o 2 de Março, e subjectivamente poder-se-á considerar que para isso já valeu a pena sair de casa. Mas formas “objectivas” de classificar o sucesso de uma manifestação não existem, nem que o governo tivesse “objectivamente” caído.

      “Creio que esteve muito mais próximo de cair precisamente no período entre 15 de Setembro e 14 de Novembro”
      É possível, será uma avaliação subjectiva, mas -a ser verdade – isso é mais mérito da manifestação de 15 de Setembro que desmérito da de 2 de Março.

      b) “É falso que os vetos de participação no QSLT tenham sido por questões práticas – muitos foram essencialmente políticos.”

      O que é que o Tiago sabe que eu não sei?
      Participei nas várias reuniões e nunca me apercebi de “vetos de participação políticos” (que não fossem no sentido de vetar a participação de alguém associado à extrema direita – posições políticas xenófobas/racistas, etc.. são as únicas que tomei conhecimento que eram vetadas).
      Mais a mais, essa é uma acusação grave e não deveria ser feita sem provas. Nem os ditos “artigos” que supostamente “revelavam tudo” falavam sobre qualquer tipo de vetos políticos.
      É estranho que um grupo diverso ao ponto de englobar gente do MAS, do BE, do PCP, do PS, anarquistas e outras pessoas desligadas da militância em qualquer partido fosse um grupo onde tivessem existido vetos por razões “políticas”.
      E estou apenas a falar daquelas que acabei por vir a conhecer – as pessoas não andavam aí a perguntar, e nunca perguntaram nada sobre as minhas convicções políticas/partidárias. Não sei se estariam lá pessoas do PCTP, do PH, e por aí fora…
      É verdade que posso com segurança “apostar” que não estava lá ninguém do PSD/PP/etc.. Mas creio que isso não se deve a qualquer tipo de “veto político”…

      c)”O Autor, ou autora, do comentário não sabe patavina de que moldes assume ou não a minha participação no “activismo” portanto não sabe nada da minha politica de convergências ou de falta delas.”
      É verdade que não sei, mas eu não escrevi tendo em conta o que conheço ou deixo de conhecer do autor, mas sim do que interpretei (presumo que mal…) do texto.
      O texto aparentemente fala na necessidade de travar um “debate prévio” sobre os objectivos do protesto («O poder que procuramos construir deverá ser constituinte ou destituinte»), alegando depois que a resposta do QSLT à omissão desse debate (poder “restituinte”) foi desadequada. É mesmo dito que «o QSLT representou a tentativa de reconduzir a efervescência política que grassava nas ruas ao programa da esquerda institucional».
      Acontece que o debate sobre os objectivos do protesto tem existido sem cessar entre activistas com pontos de vista divergentes, e provavelmente ainda não parou. Mas uma acção plural tem de saber aceitar que diferentes grupos têm objectivos diversos, e encontrar o “mínimo denominador comum” e centrar o debate na melhor forma de transformar estes valores e objectivos comuns numa acção com a qual todos se identifiquem.
      Nesse sentido, o QSLT NÃO representou a tentativa de reconduzir a efervescência política que grassava nas ruas ao programa da esquerda institucional, precisamente porque, sendo um grupo plural, inclua uma fatia significativa de pessoas que não acreditavam nas instituições da democracia representativa – incluindo as de esquerda. E o autor deverá ter tomado contacto com elas porque a descrição que é feita do evento da Unipop parece ter essa assinatura.
      Assim, é verdade que o dito debate não se travou, mas também não foi encontrada uma outra resposta na sua omissão. Ao invés, sacrificou-se a definição mais clara dos objectivos do protesto (eram tão vagos e abrangentes quanto se podia ler pelo manifesto) em nome do pluralismo e abrangência, e consequentemente da participação e força da acção.

      Bem sei que isto é “subjectivo”, mas parece-me que foi a escolha adequada.

      João Vasco

      1. Caro João Vasco,

        Houve efectivamente pessoas vetadas por estarem associadas a blogues onde tinham sido feitas críticas ao BE (se as críticas eram justas, construtivas ou se tinham sido feitas pelas pessoas acusadas de as fazer é outra questão). Esta situação foi-me confirmada por várias pessoas diferentes, em vários momentos diferentes. Entenda-se: se algo é acusado de ser palaciano é precisamente porque há discussões que são problematizadas nos corredores e não nas assembleias. De qualquer modo esta nem sequer me parece a questão mais relevante.

        Não discuto que o processo de organização tenha sido interessante, rico e plural. Há no QSLT pessoas pelo qual tenho o maior respeito pessoal mesmo discordando frontalmente delas. E também não discuto que os objectivos de conjugação implicassem várias cedências de parte a parte, mas, talvez não me tenha explicado bem, a minha crítica ao QSLT não tem a ver com a sua radicalidade ou falta dela ou com a consistência das posições politicas – antes pelo contrário – tem antes como o discurso da manifestação foi organizado tendo em conta a recondução da rua à política institucional – o melhor exemplo terá sido terem deslocado a manif de são bento para o terreiro do paço. Repare que não estou a fazer um critíca moral mas política – pessoalmente acho que essa recondução e as suas consequências foram bastante problemáticas.

        relativamente à subjectividade: há duas maneiras de encarar uma manifestação: na primeira ela é vista enquanto expressão colectiva de um ponto de vista, de uma opinião sobre algo secundada pela manifesta presença de cidadãos. No segundo ela serve enquanto processo colectivo constituinte e operativo. o 2 de março triunfou na primeira, falhou redondamente na segunda.

        E lamento, mas no panorama geral de superação deste estado das coisas, creio a substituição de gaspar por outra pessoa, ou mesmo a demissão especifica deste governo será um mero detalhe.

        De qualquer modo obrigado pelos comentários,

        Tiago

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s