O Centro LGBT de Lisboa foi hoje encerrado. Estará a ILGA disposta a dar a solidariedade que pede?

A ILGA-Portugal anunciou hoje o encerramento do Centro Comunitário LGBT, após 17 anos em funcionamento. Pode ler-se no comunicado:

“Com base apenas no apoio de uma renda controlada, conseguimos desenvolver, alargar e diversificar os Serviços prestados (que incluem o Serviço de Aconselhamento Psicológico, a Linha LGBT, o Centro de Documentação, o Departamento Jurídico e o Serviço de Integração Social) e garantimos a expansão das atividades e projetos que decorrem no Centro, bem como a diversificação de Grupos a potenciar esse dinamismo e a garantir uma utilização sistemática do espaço em todas as suas valências.”

Perdemos hoje o último resto de reconhecimento que existia por parte da Câmara Municipal de Lisboa pelo trabalho lá desenvolvido. A CML perdeu hoje a oportunidade que tinha se afirmar contra a homofobia, a lesbofobia, a bifobia e a transfobia que são alvos as pessoas LGBT. A CML posicionou-se hoje do lado do preconceito, do lado da discriminação, deixando na rua todas as pessoas que pelas mais diversas razões tinham ali um espaço comunitário de partilha, apoio e muito trabalho feito, nomeadamente pela mão das pessoas voluntárias na associação ILGA, mas não só. O conceito de Centro LGBT era para quem o procurasse, portanto quem perde são as pessoas que neste Centro não tem mais o espaço do comum.

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No 25 de Abril de 2012, um grupo de pessoas, ocupou a casa que fica por cima do Centro Comunitário LGBT. Lia-se no comunicado da ocupa de São Lázaro 94:

“Somos habitantes da cidade de Lisboa que assistem, pensam e criticam há vários anos o modelo de revalorização a que têm sido sujeitos os bairros da cidade. Somos aqueles que vivem na pele o resultado da política de abandono selvagem do centro de Lisboa por parte dos seus maiores proprietários – curiosamente, a Câmara e a Santa Casa da Misericórdia. Um abandono sistemático e programado com consequências criminosas para quem aqui vive, como a manutenção de rendas impossíveis, a impossibilidade de independência dos mais jovens, a retenção e especulação que alimentam e inflacionam o mercado imobiliário dos grandes grupos económicos (veja-se o que aconteceu no Bairro Alto, no Príncipe Real, no Oriente, no Cais do Sodré, em Alfama).”

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O que este grupo denunciou foram exatamente as mesmas condições que a associação ILGA denuncia, uma solidariedade também com a própria associação, mas que ia para além dela. Reivindicava a ocupa de São Lázaro a recuperação do abandono nas nossas cidades a favor da comunidade, da partilha, e por fim da inclusão: o que também a ILGA pede.

No entanto, para a ILGA, “a degradação progressiva do edifício, agravada por sucessivas ocupações e inundações, levou, entre outros problemas graves, ao desabamento de várias zonas do teto”. Esta afirmação no comunicado da ILGA é desonesta, pois omite que as sucessivas ocupações, foram duas (apenas), sendo que a primeira demorou apenas umas breves horas até que a polícia expulsasse os ocupantes – aconteceu no dia da Greve Geral de 20 de Novembro de 2010. É desonesta porque se a ILGA não pode controlar as inundações, nem quer acusar a verdadeira causa da deterioração do Centro LGBT (a Câmara e a sua política de abandono) usa como bode espiatório o facto de ter existido uma ocupação por cima do Centro.

Se a ocupação de São Lázaro não tivesse acontecido, tendo o edificio permanecido ao abandono todos esses anos (menos 15 dias de uma ocupação), o Centro LGBT hoje estaria aberto?

A ILGA não reconhece que em todas as ocupações estavam, entre muitas outras pessoas, também pessoas L, G, B e T, que perderam nessa altura o espaço onde procuravam o que não existe no Centro LGBT. E aquilo que todos os ocupantes de São Lázaro 94 procuraram foi exatamente o que a ILGA procura agora para a comunidade LGBT em Lisboa: um espaço que pudessem dinamizar, um espaço onde não houvesse lugar a poder ou discriminação.

Sem baixar em nenhum momento a solidariedade com as pessoas LGBT, já se faz tempo de perguntar se estará a ILGA disposta a dar a outros grupos discriminados a solidariedade que pede, e que as pessoas LGBT merecem? As dicas ficam no vídeo abaixo.

About Irina Spalko

Nasci e cresci numa pequena vila nas regiões orientais da ex República Socialista Soviética (Kazan). Fui considerada bruxa na minha aldeia. Cedo sai de casa, tendo vivido um pouco por toda a Rússia. Gosto de esgrima e combate corpo -a-corpo. Sou prima afastada da conhecida empresária Isabel dos Santos (parte materna de ambas).

Uma opinião sobre “O Centro LGBT de Lisboa foi hoje encerrado. Estará a ILGA disposta a dar a solidariedade que pede?

  1. É fácil criticar sem construir. Grande parte do trabalho da ILGA vai de encontro a muitas necessidades. São formas estruturadas? Sim, são. E sê-lo-ão menos válidas por isso? Ou serão exactamente por isso válidas em apoio contínuo a milhares de pessoas? As ocupações perturbaram esse trabalho da ILGA? Sim, completamente. Durante duas semanas muitos dos serviços e grupos da ILGA (que são muitíssimo mais, e muitíssimo mais profundos, do que o coro mostrado na fotografia) foram interrompidos.
    Eu próprio vi-me a apoiar em absoluto a ocupação, mas a sentir directamente as consequências que isso estava a ter no funcionamento da ILGA. Na zona existem bastantes mais prédios com as mesmas características do prédio ocupado.
    No Centro LGBT não existe somente o que é visível e aparente. Muitos serviços estão nos bastidores – apoio psicológico e jurídico, a Linha LGBT, centro de documentação (com documentos únicos e importantes para uma construção identitária), organização do Arraial Pride (que funciona todo o ano, para criar um evento único no país), integração social de jovens sem abrigo, apoio a refugiados, etc, etc…
    Como pode a ILGA ser solidária com seja o que for que interrompe por completo o seu bom funcionamento?

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