Notas para uma crítica radical do turismo (I)

 

A falsificação do real

“Subproduto da circulação das mercadorias, a circulação humana considerada como um consumo, o turismo, reduz-se fundamentalmente à distracção de ir ver o que se tornou banal” (Guy Debord)

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Viajar por outros mundos é uma coisa séria. Sairmos por um tempo do nosso mundo para mergulharmos na rotina de outro mundo, guiados exclusivamente por quem o habita, é algo de extraordinário e único. Quem já o experimentou sabe que marca profundamente, como poucas experiências na vida: quando regressamos ao nosso mundo, vimos transformados; vimos diferentes, enriquecidos de novos saberes e perspectivas para transformar o quotidiano.

Mas essa imersão radical noutros mundos está em vias de extinção. Porque o turismo se tornou hegemónico na mediação das viagens dos consumidores contemporâneos.

O turismo é hoje a indústria que promove a instrumentalização do território com vista à criação de materialidades consumíveis. O território é assim adulterado pelos operadores turísticos para das suas paisagens, arquitecturas, lugares e monumentos se fabricarem imagens apelativas e facilmente vendáveis. Sector estratégico da vastíssima indústria de entretenimento global, o turismo fabrica mentirosos mas lucrativos supermercados de imagens, sem qualquer ligação aos verdadeiros usos e costumes das populações a que supostamente essas imagens fariam referência.

É assim que, em Dresden e em Varsóvia, se reinventam de raiz velhos centros históricos lá onde a segunda grande guerra apenas deixara escombros. Em Berlim, monta-se o maior estaleiro de obras do mundo (apenas superado por Shangai) para restaurar milhares de fachadas e assim apagar, de uma pincelada, os sinais verdadeiros de história nelas acumulados durante um século (reenviando à industrialização da cidade, ao nazismo, à segunda guerra e ao socialismo). Em Pequim, a modernização das zonas geograficamente mais privilegiadas da cidade arrasa a bulldozer os bairros populares (hutongs), os quais passam a existir apenas como imagens que se expõem nalgumas ruas em cartazes gigantes, continuando esses bairros assim (e pese embora terem cessado de existir) a dar o seu pitoresco à cidade. Em Barcelona, é um bairro integralmente falsificado, o célebre Bairro Gótico, que concentra as atenções dos turistas, os quais, progressivamente, se começam a virar também para um bairro vizinho, o Born, desde que este se gentrificou. E é o centro de Cracóvia, com o seu comércio tradicional totalmente tomado por uma rede de multinacionais americanas e europeias, que mostra, melhor que qualquer outro lugar, que tipo de economia lucra com a adulteração turística do território.

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Enquanto promotor da mercantilização do território, com tudo o que este inclui, o turismo cria versões mercantilizáveis dos mundos em que opera. Versões que, para atraírem consumidores, falsificam os mundos que supostamente representam. Os pseudomundos criados pelo turismo são mundos que simplesmente não existem, mas cuja representação se converteu num dos mais apetecíveis negócios do nosso tempo.

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O autêntico, que num qualquer pacote ou guia turístico se vende ao consumidor, é uma das ficções que nos tempos que correm está mais em voga no universo turístico. Na sua acumulação de experiências supostamente autênticas, os peregrinos dos roteiros Lonely Planet, por exemplo, não chegam a aprofundar nenhuma dessas experiências coleccionadas, pelo que a suposta autenticidade consumida é apenas uma representação esvaziada daquilo que poderia efectivamente ser autêntico.

Por conseguinte, quando sai do seu mundo, o turista nunca chega a entrar num outro mundo; o que lhe é apresentado é sempre um pseudomundo, dentro do qual ninguém tem histórias pessoais, vinculadas a biografias verdadeiras, para contar. E, quando por casualidade aparece esse alguém, disponível para contar histórias que falam da realidade dos lugares, é o turista quem se vê forçado a abortar o convívio que poderia prolongar-se, dada a sua pressa crónica para prosseguir um qualquer roteiro, que lhe permita acumular experiências consumíveis; e, refira-se também, o seu interesse (com a excepção de algum turismo alternativo emergente) tão pouco é conhecer lugares da perspectiva de quem os criou.

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Mas dizia eu que o turista nunca chega a entrar senão num pseudomundo exclusivamente fabricado para ser consumido, no interior do qual ninguém possui histórias reais para partilhar, porque o interior desse mundo falsificado não é habitado por um único ser que nele construa a sua vida: empregados de restaurantes e de lojas de souvenirs, recepcionistas, motoristas, vendedores, cozinheiros, falsos artífices, seguranças privados, polícias, guias profissionais apenas desempenham a sua função profissional para viabilizar o consumo turístico do território. Mas, terminado o seu turno, cada um destes assalariados regressará ao seu lar (é aqui que estão os mundos verdadeiros onde o turista jamais entra porque neles não há espectáculos fabricados para serem consumidos; se entrasse por via da amizade, ele não seria um turista que é por definição um consumidor), situados à margem do pseudomundo turístico que irriga a economia global, onde os big players nunca são os pequenos peões da economia regional, mas uma pequena rede de empresas gigantes com negócios à escala planetária.

Fotos de Martin Parr da colecção Small World (1996)
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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

7 thoughts on “Notas para uma crítica radical do turismo (I)

  1. “… restaurar milhares de fachadas e assim apagar, de uma pincelada, os sinais verdadeiros de história nelas acumulados durante um século” a ode à ruína, com Ruskin e Turner!! E que sempre me comoveu essa mito poética!!

  2. Caro Justiniano, as odes às ruínas (à temporalidade selvagem que, não se deixando domesticar pela espacialidade, chega mesmo ao ponto de corrompê-la) interessam-me, mas não é o caso de Berlim.

    Nos bairros de Prenzlauer Berg, Mitte e parcialmente Friedrichshain (ou seja, toda a zona central da Berlim oriental, que concentra a maioria dos edifícios mais antigos), o debate que se viveu no final dos anos 90 não era entre manterem-se ruínas ou restaurarem-se fachadas eliminando-se todas as suas cicatrizes de história acumuladas. Nestes bairros, havia prédios (que estavam muito longe de serem ruínas) a necessitar de obras (o socialismo canalizou o seu orçamento de estado para a saúde, educação, mas não para a conservação de fachadas urbanas, como é sabido), mas não de restauros integrais de fachadas. Esta foi uma decisão puramente ideológica: apagar o passado ou grande parte dele, forjar o cenário de um presente sem memória.

    Edifícios antigos, com uma história impressionante, foram assim manipulados (pela especulação do metro quadrado e pelas autoridades municipais) através de restauros muito discutíveis para forjar uma nova imagem para a cidade; e é essa nova imagem (que deturpa patrimonialmente a história) que hoje atrai milhões de turistas à capital alemã.

    Os restauros massificados das fachadas de Berlim oriental (talvez o maior movimento de restauros urbanos da história do homem!!) foram ideológicos, quero frisar esta ideia. Por isso, as novas fachadas ‘restauradas’ ganharam as cores fetiche da burguesia (as tonalidades pastel) e impuseram, com a reenfatização pelo restauro das suas formas neoclássicas originais (em detrimento das cicatrizes deixadas por um séc. de história), o período da história que mais interessa à burguesia: o Renascimento, sua época áurea e fundacional.

    Saudações do campo,
    PDuarte

    1. Bem sabemos, caro Duarte, no caso, especialíssimo, de berlin, é o assombro histórico que escarra a ruína como motivo de obra, por si, a sobre-exposição da ruína como testemunho vivo. Mas berlin, também, nunca me interessou, verdadeiramente!!

    2. Mas, caro Duarte, as cicatrizes, que apontamos, nas ruínas, não foram o maior monumento turístico berlinense dos últimos 30 anos!!?? Não será, a exposição melancólica ou consternada dessas ruínas, cicatrizes, a maior falsificação do real!? Viver vidas invivíveis, que tantos seduziu a repovoar as ruínas de berlin!? E ocuparam ruínas, a estética das ruínas!! Elaboraram e assinalaram obras que se julgam por arte!! Deixemos berlin!

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