Exorcismo Anti-praxista a Propósito de um Debate Sobre a Praxe (Submissão? Só à voz da nossa consciência.)

tumblr_mcrxpuEEoq1qb6dleo1_r1_1280Vivi 27 anos em Coimbra divididos pelos dois lados da Praça da República que divide o teatro onde hoje se absolveu a Praxe da Praxe e se concluiu que a Praxe que é Praxe não é a Praxe que os Praxistas sonham mas não fazem. Só alguns, poucos, a praticam com bonomia ou com a vacuidade própria dos mancebos apaparicados. No TAGV vi coisas tão diferentes como a Dama e o Vagabundo, nos primeiros passeios sem crescido, ou os filmes do Dogma 95, nas sempre fascinantes catacumbas da pré-adolescência. Também vi, mais tarde, aquela sala cheia de estudantes a discutir, a votar, a trocar gritos ou apertos, e não raras vezes, de forma esmagadora, esclarecedoras trocas de argumentos que deram corpo a actos de resistência concretos que durante anos e gerações a fio impediram coisas tão diferentes como a aplicação das propinas ou protestos contundentes contra guerra no Afeganistão e no Iraque. A praxe era defendida ou combatida nos intervalos das batalhas, tantas eram as coisas que havia para fazer. Ela sempre me chateou e nunca me seduziu e, entre gritos, sempre procurei distinguir quem a via com carinho, ainda que sem a ver pelos olhos da verdade. Cansei-me das queimas ainda no liceu e o barulho das latas sempre me fez dor de cabeça, eventualmente também provocado pelo cheiro fétido da cerveja e da urina misturadas com o lixo, que de tempos a tempos jorrava pelas ruas da cidade. Serenatas, sempre à chuva, nunca me pareceram sequer dignas de algum do fado que lá era cantado e as outras coisas lindas de que tanto falam, da benção da pasta ao sempre comovente retrato de família, sempre me soaram mais fastidiosos do que emocionantes.

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Aprendi a deixar de os ver ou ouvir e a combater a violência da sua arrogância com a arrogância da minha violência. Mas sou fraco de braços para tanto fugir e nunca gostei de bater muito. Aqui e ali, com alguma crueldade, era mesmo capaz de correr a cidade sem sequer me lembrar da sombria existência dos bandos à solta. Os mais abnegados, desengane-se quem os acha aventureiros, mal sabem que Coimbra nem começa no Mondego nem se esgota entre o Botânico e o Papa. A maioria das Repúblicas foram um porto seguro, mas o único gueto que conheci estava mais acima, dentro dos muros da Universidade. Fui quase sempre minoria, fosse na Academia, na Universidade ou na Cidade, mas poucas maiorias mostraram ter argumentos para justificar o batalhão de gente que iam convencendo para o seu lado. Hoje, no debate que tanto se bate, parece que nada mudou em cada uma das tribos que fazem a tradição daquele planalto malfadado pela torre que o Antero devia ter resolvido com as suas, só com as suas, boas maneiras. Tão bom teria sido ser poupado ao divorcio da razão com a maioria e à incapacidade da minoria levar a razão para além das fronteiras dos seus salões de gala.

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3 thoughts on “Exorcismo Anti-praxista a Propósito de um Debate Sobre a Praxe (Submissão? Só à voz da nossa consciência.)

  1. Bela peça literária, acima de tudo. Fica (sobra) o essencial: como é que se combate ideologicamente e na prática a praxe sem esperar por uma lei salvífica? Como mostrar, e daí fazer lei racional-conceptual-ideológica, a essência da praxe? Como desconstruí-la sem dó nem piedade, de modo a que, sem proibição legal, ela se desmorone, se corroa a si mesma e desapareça? Este é que é o debate a fazer. Que, “lateralmente”, implica também destruir esta chamada “sociedade”. (Abraço e, acho, até quarta ou quinta.)

    1. Da única maneira que se conhece para fazer esse combate. Expor ao ridículo e confiar que, mais cedo ou mais tarde, os estudantes percebam que há coisas bem mais interessantes às quais dedicar o tempo que passam na Universidade. Isso ou Antero, claro, espalhando o fogo pela ignorância.
      Quarta ou quinta seja! ;)

    2. Aquela maravilhosa desconstrução da praxe no post de Alfredo Rolo Carrasco sobre o Meco dá-nos uma imagem (de parte) do caminho desconstrutivista a seguir: menos humilhação, mais desbunda; menos tradição, mais vanguarda; menos repressão, mais descontracção…

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