O escoar das horas sem vida é mais terrível que a morte

Convido os leitores deste blogue para uma digressão com o fotógrafo Edward Burtynsky. As suas fotografias, da colecção Manufacturing, irão guiar-nos

  •  pelas melhores horas do dia e os melhores anos da vida que milhões de assalariados deste planeta dedicam à pasmaceira monorrítmica do trabalho assalariado

Mudança de turno, Fábrica de sapatos Yuyuan, Gaobu, Província de Guangdong, China, 2004
  • pelos palcos de automatizações em que se convertem os quotidianos robotizados de todos esses assalariados

Unidade de processamento de frangos mortos, Dehui, Província de Jilin, China, 2005
  • pelos métodos gestionários e totalitários das fábricas onde se produzem as mercadorias poluídas e falsificadas que encontramos  nas nossas lojas

Fábrica Cankun, Zhangzhou, Província de Fujian, 2005
  • pela sociedade da autorrepressão e da obediência que, desde a escola primária, nos educa a comportarmo-nos como material humano, energia humanarecursos humanos, capazes de suportar alegremente (e muitas vezes de amar) a escravatura do trabalho assalariado, fonte inesgotável de desigualdades, brutalidades, infelicidades, doenças e (cada vez em maior número) suicídios.

Cantina da Fábrica Youngor Textiles, Ningbo, Província de Zhejiang, China, 2005

Nesta digressão, poderemos reflectir também sobre algumas questões.

Fábrica Bird Mobile, Ningbo, Província de Zhejiang, China, 2005

O que pode um patrão esperar dos seus assalariados?

(E os assalariados, o que podem esperar do seu patrão?)

Fábrica Bird Mobile, Ningbo, Província de Zhejiang, China, 2005

Quando esquerdistas afirmam que “o trabalho é ainda um dos mais importantes vectores de aprendizagem e de interiorização dos códigos sociais, um possante instrumento de socialização e de responsabilização do indivíduo”, até onde nos querem levar?

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Dormitório de operários, China, 2005

Arbeit macht frei?

16_manufactured_landscapes_04

Fábrica de sapatos Hongqingting, Wenzhou, Província de Zhejiang, China, 2004

Será o trabalho o destino natural do homem?

(E será por os sem abrigo não trabalharem que muitos transeuntes deixaram de ver neles pessoas, e que por isso pouco os escandaliza ver como morrem de frio e de fome?)

Fábrica Cankun, Xiamen, China, 2005

Como explicar o consenso entre dirigentes e dirigidos, ecologistas e industriais, extrema direita e extrema esquerda, patrões e sindicatos, partidos dos trabalhadores e partidos do capital, Igreja Católica, FMI, Passos Coelho e Bloco de Esquerda, sobre a obrigatoriedade de todos vendermos essa mercadoria sagrada do capitalismo que é a nossa força de trabalho?

Factory workers in blue uniforms.

Fábrica Bird Mobile, Ningbo, Província de Zhejiang, China, 2005

O que é uma política de emancipação sem a superação do tripalium?

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

One thought on “O escoar das horas sem vida é mais terrível que a morte

  1. Manda vir!

    Essa malta no fundo não curte a ideia de terem que produzir a sua própria alimentação, o seu próprio vestuário, as infraestruturas essenciais a sua sobrevivência, etc…

    Tudo o que lhes impede de ficarem constantemente a ler livros, jornais, a escreverem para blogs, revistas.. não lhes agrada nada.

    Mas como precisam todos de comer, agasalharem-se, abrigarem-se, etc… Os outros que o façam. Mas com boas condições, ok!?

    Não desconsiderando válidas observações marxistas, uma coisa que me deixa desconfortável (para não dizer irritado ao ponto de distribuir umas galhetas), é a maneira como os marxistas em geral abordam o denominado lumpen.

    Querem uma sociedade melhor a ostracizar uma parte da população que não se encaixa no perfil que eles consideram útil a sociedade e a ‘revolução’.
    Respeito pela condição humana mas só se encaixar no molde…

    A coisa promete.

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