Paternalismo libertário e autoritarismo no alegre regresso à animalidade

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Os debates são como a fruta, nem sempre são por dentro o que aparentam por fora, e quando são bons lembram sobretudo as uvas ou as cerejas, impossíveis de comer no singular. Aquele que tem vindo a ser aprofundado, por aqui (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9) teve tergiversações importantes (outras nem por isso), mas interessa-me sobretudo a compreensão que fazemos de “Mercadoria”, essa que nos manieta o jeito e o olhar.

Depois da sua bem sucedida provocação inicial, o PDuarte chamou atenção para o essencial nesta conversa, quando ironiza que somos “todos livres todos únicos todos especiais todos individuais todos felizes todos contentes. Esta máxima do discurso individualista – nas suas palavras uma “firewall do fascismo neoliberal” –  que mesmo à esquerda é cada vez mais hegemónica, não raras vezes aparece maquilhada com uma novilíngua identitária, algo que não creio que ajude a uma leitura mais aprofundada do impacto do capitalismo nos corpos e nos desejos.

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Lendo o Sérgio Vitorino poderíamos ser levados a achar que sim: “Deixem as pessoas ser felizes como são pá, que a vida é curta. E não sejam agentes da repressão sexual confundindo a cultura do corpo com a liberdade sobre o corpo e a sua exposição – mas será isso verdade?  Será que a emancipação se arranca mentindo sobre nós próprios e sobre a força arrasadora da ideologia, sobretudo no seu impacto na nossa sexualidade? Tenho dúvidas. Muitas. A começar porque não é esse o discurso que se tem sobre todas as outras esferas da vida. Se não há liberdade no trabalho escravo e é curto o livre arbítrio na hora de escolher o modo de vida, porque haveremos de reconhecer autenticidade, sem pelo menos questionar, ao “modelo” da Miley Cyrus?

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Desengane-se quem acha que com isto quero dizer que tudo o que é espectáculo ou mercadoria não nos serve, nada tem de genuíno. Tem, apesar de cada vez mais sobrar espectro ao autêntico. Agora se é fundamental defender um roteiro contra a repressão desnecessária não deixa de ser notório que há uma parte da repressão absolutamente necessária, e até costumamos ser dela bons advogados, sobretudo em causa própria. Da educação dos filhos às regras de transito, não faltam códigos de repressão que nos garantem civilidade. O “caminho da libertação” – tão evangélico como necessário na medida que cada qual deve definir, não pode evidentemente esquecer que do outro lado da nossa liberdade existe outro. Este argumento é válido para todo o tipo de “piropos” que ultrapassam a urbanidade, ou não será assim? O fim de todo o e qualquer sistema de repressão leva-nos de volta às cavernas, local onde não será bonito ver condensado todas as formas de desejo que se podem conceber. Eventualmente até, dirão os mais irresolutos, que verdadeiramente livres só seremos se o regresso for ainda mais remoto, aos saltos entre os mangais e as bananeiras, a usufruir da violência libertária do primitivismo.

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Assim, um pequeno nada de repressão sexual é fundamental para que a nossa sexualidade não viole a sexualidade dos outros. Caso contrário, e levando a primazia individual ao absurdo, já com jurisprudência na Suécia, teremos que estar prontos para viver aceitando que o direito de alguém se masturbar em público é superior ao direito daqueles que não querem ser sujeitos a isso. Que liberdade é essa que emana onde se retira tudo ao sexo menos o espectáculo? Basta-nos a possibilidade de chamar liberdade à mercadoria quando ela não nos dá mais do que “bonecos” mais ou menos apelativos? Compreendo, mas discordo, do argumento do Vidal. Em teoria nada deveria obstruir o caminho do “desejado orgasmo”, mas a verdade é que não são poucos os obstáculos e, alguns, comportam até um inegável grau de sentido num contexto colectivo.

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Além das perguntas que o Menor deixou no excelente contributo do Vidal, “porque não devemos colocar entre nós e o desejado orgasmo nenhum plano vertical de ideologia, e ao contrário, sobre todas as outras “Mercadorias” o devemos fazer? Eu tendo a concordar, daí ter escrito que sobre o assunto eu próprio me assumo como mercadoria, mas não colocar planos será equivalente a achar que não existe um plano ideológico a determinar o que nos dá tesão? E consequentemente nos molda para darmos tesão aos outros?”, acrescentaria outra ainda: Viveríamos livres num mundo sem qualquer resquício de repressão sexual, sobretudo aquela que impomos a nós próprios quando confrontados com os limites dos outros? E como o fazer, repito, numa sociedade colectiva, sem violar a emancipação de quem escolhe outras fronteiras para abrir o seu caminho?

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Não identificam nessa abstracção teórica tanto do paternalismo daqueles que estão sistematicamente a tentar regular o que podemos ou não fazer na intimidade? Não tiraram conclusões do que disse Amina Sboui quando se demarcou do paternalismo etnocêntrico das FEMEN?

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Amina Sboui: “I Do Not Want My Name To Be Associated With An Islamophobic Organization”

6 opiniões sobre “Paternalismo libertário e autoritarismo no alegre regresso à animalidade

      1. Os textos do Sérgio no 5dias (apesar de rarearem, por razões de trabalhos que nos envolvem e dispersam a todos) eram e são sempre motivo de leitura atenta.

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