Um ensaio de ANTÓNIO BRACINHA VIEIRA* sobre o terror do capital financeiro, a biopolítica e o futuro

* António Bracinha Vieira é um marcante intelectual e cientista português. Médico psiquiatra, foi docente da Faculdade de Medicina da Universidadee de Lisboa; investigador nos domínios da Etologia, Antropolologia Biológica e Evolucionismo (nestas áreas é Catedrático da FCSH da Universidade Nova de Lisboa); tem ainda vasta produção de teoria política e ficção literária.

Assim como, no modelo evolucionista chamado sociobiológico, os organismos, dotados de memória, sensibilidade e acção e submetidos ao convívio do mundo, são supostos serem marionetas ao serviço dos genes (cuja proporção nas gerações seguintes decorre do comportamento mais ou menos adequado dos seus detentores), assim também, na sociedade ultraliberal que se estabeleceu, as pessoas, dotadas da capacidade de agir, perceber e sofrer, se tornam marionetas do capital financeiro que, da manipulação sistemática dos seus comportamentos e vontades, extrai o sucesso da sua multiplicação.

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ANDREAS GURSKY. “Chicago Board of Trade”. 1997

Somos primatas prodigiosamente miméticos. A nossa história natural dotou-nos desse traço irrevogável, que outrora desempenhou funções adaptativas, até que, quando da maior revolução sofrida pela humanidade – o Neolítico – tendo-se os homens fixado em cidades, o mimetismo se tornou elemento de doutrinação e manipulação. Outrotanto aconteceu com a tendência inata dos homens e dos seus antepassados pré-humanos e não humanos para constituirem escalas e redes de dominância hierárquica, propensão que resultou, a partir dos tempos neolíticos, na estratificação do corpo social por castas e por classes. Esta é a nossa matéria de base.

O projecto neoliberal apoiou-se num pequeno número de alavancas poderosas conjugadas e premeditadamente desencadeadas, entre as quais a multiplicação até à náusea, e a dispersão até ao limite, dos écrans televisivos, debitando dia e noite a mensagem optimista da mercadoria fácil pela boca de anunciadoras publicitárias que, parecendo familiares, são inacessíveis, e parecendo sedutoras, são malignas – como as sereias que assediavam os navegantes e ameaçaram Ulisses.

A comunicação informática generalizada foi outro dos recursos ao serviço do projecto neocapitalista, ao divulgar sem restrições os meios de acesso à mercadoria e ao instaurar um sistema planetário de espionagem dos dizeres e das vontades, configurando uma versão universal do «panóptico» definido e analisado por Michel Foucault. Mas se o panóptico se destinava a ver de todos os ângulos todo e qualquer fenómeno ocorrido no interior das prisões, o panóptico informático permite ver em todos os azimutes o que acontece na totalidade da superfície da Terra.

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GURSKY. “Hong Kong Stock Exchange”. 1994

O terceiro pilar de apoio do neoliberalsmo é a «biopolítica» – outra figura delineada e estudada por Foucault – levando o poder a agir eficaz e metodicamente sobre as instâncias que regulam o comportamento humano, submetendo os corpos não já pela força violenta (como no passado) mas por força da sedução, e vergando-os desde logo aos interesses do que se joga na profundidade. Ora, sendo a ingerência na vontade humana um primeiro degrau da escalada biopolítica, ela terá meios de prosseguir através da invasão das redes dos neurónios e encontrará a sua apoteose na intrusão genética.

O último dos grandes vectores activados para a submissão mundial das multidões acríticas é o domínio da linguagem, cujo enfraquecimento é perpetrado dia a dia, por forma a substituir o discurso argumentativo pelo discurso elementar da publicidade, desde que tudo se tornou mercado e toda a linguagem tende a tornar-se publicitária – e mesmo, insidiosamente, a linguagem da literatura e da filosofia.

Uma espécie de idioma inglês empobrecido e aviltado, infantilizado e mesclado com siglas informáticas e abreviaturas de instituições financeiras, reduzido na sua formulação sintáctica, descaracterizado na sua capacidade semântica, tornou-se a língua mundial das trocas mercantis e, ao mesmo tempo, a língua franca de uma ciência que, monopolizada enfim pelos poderosos, perdeu a independência, a transparência e a isenção que a tornavam credível.

Como o critério único de respeitabilidade passou a ser o gosto da multidão, a literatura e o conjunto das artes sujeitaram-se exclusivamente a esse gosto vil, e escritores e artistas, na avidez das vendas e na avidez da fama, calaram a subversão latente no interior da arte, que faz parte da sua essência, e aquiesceram ao gosto sórdido e mimético do maior número. Neste percurso de degradação acabaram por vender-se eles próprios, descendo ao que, na Antiguidade, correspondia à condição de escravo.

Mas se os escravos antigos lamentavam a sua condição, os modernos dela se vangloriam e tudo fazem para que, vendendo-se integralmente, publicitando-se nos pequenos écrans pela voz das sereias, sejam aplaudidos na plenitude da sua vacuidade.

Como a linguagem da multidão se desnaturou a um ponto inimaginável, desaparece o horizonte crítico que permitiria às sociedades detectarem o seu estado precário e a iminência do seu colapso: mas o alimento mediático exclusivo e deletério que absorvem sem cessar preenche todo o espaço das mentes empobrecidas, neutraliza a razão, paralisa o juízo crítico e leva-as a transigir com a abominação que tudo infiltra.

Quem suscitasse ainda um discurso insubmisso não encontraria veículo para se fazer escutar, e essa forma radical de censura excede as perseguições e os autos-de-fé dos séculos passados, porque doravante nenhuma voz de revolta poderá ser ouvida, perante a muralha ciclópica do optimismo consumista, reerguida hora a hora pelos títeres do poder subterrâneo.

A aniquilação da crítica arrastará – arrasta já, como duvidar – a aniquilação da ética. E como o roubo e a corrupção são casos particulares de propriedade privada, eles tornam-se, paradoxalmente, no motor central da respeitabilidade. Assim declina, bascula e se desmorona o ‘imperativo categórico’ kantiano (que parecia firmemente ancorado na conciência humana) e poderemos perguntar se os que dele assim são destituídos permanecem integralmente humanos.

O grande escândalo da sociedade abjecta é que ninguém mais se possa escandalizar.

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GURSKY. “Kuwait Stock Exchange”. 2007

O sistema panóptico da informação-doutrinação fará constar em todos os cantos do mundo que a civilização atingiu a culminância e que a democracia tocou a perfeição: de facto, multidões insensíveis e hedónicas correm a eleger como governantes certos personagens que lhes são acenados, mas não detêm o poder real, antes são servos dos que, da sombra, exercem contra elas um poder sem limites e sem escrúpulos.

A articulação da grande fraude mundializante, do encadeado planetário da mentira, obscurece, sob a apoteose do consumo e dos mercados, a grande infâmia perpetrada, que consiste em clivar o corpo social e em denegar direitos aos humanos, fazendo-lhes crer que estão na plenitude da História.

Os primatas (grupo de mamíferos a que pertencemos), com o seu olhar de relevo que vê o mundo em profundidade, com as suas mãos preênseis e analisadoras de objectos e a sua cognição inventiva, têm um percurso evolutivo individualista. No novo projecto de fracturar a sociedade, falso contrato social que não foi discutido nem assinado, pretende-se substitur a individualidade primática por um colectivismo de térmitas, realizando uma outra contra-utopia sociobiológica.

Um número exíguo de privilegiados viverão doravante em ilhas de prosperidade e esbanjamento, por entre as marés negras de multidões carentes, ora manobradas ao serviço dos seus interesses inconstantes, ora abandonadas na paisagem desolada, e, à medida que novas fissuras romperem a sociedade global, o espaço dessas ilhas reduzir-se-à e as infâmias do deserto envolvente serão agravadas.

Como os detentores do poder mobilizam as formas mais titânicas de energia nos menores prazos, os recursos totais do planeta são saqueados e as gerações futuras serão privadas de direitos, mediante um facto consumado que não lhes será dado reparar.

Outra vertente insidiosa da abjecção incide na perda da escrita que de súbito se opera. A História começou quando povos neolíticos inscreveram sobre placas de argila os primeiros signos cuneiformes. Surgia uma memória acima da memória dos sujeitos, que assim acumulava experiências, rememorações e saberes. Eis que, passados cinco milénios (duração irrisória perante os tempos da evolução humana) as novas tecnologias da comunicação impostas mundialmente fazem esquecer a uma geração inteira a escrita individual, veículo de afirmação pessoal do pensamento.

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THOMAS STRUTH. “Parkview Apartments, Seongnam, Gyeonggi-Do”. 2007

Estes ‘idiotas informáticos’ perderam, ou estão à beira de perder, a faculdade individual da escrita. Alinham caracteres oferecidos por máquinas e debitam as suas sentenças para um ‘espaço virtual’, como eles mesmos lhe chamam, que corresponde ao vazio da individuação que se instaurou. E, repetindo ao invés o começo da História, abrem-se a um tempo incerto e tenebroso, a que poderemos chamar a Pós-história, fazendo periclitar as aquisições e os trunfos da História (que os os filósofos historiais e outros optimistas nos mandaram escrever com maiúscula) com a mesma rapidez abrupta que acompanhara a sua irrupção inaugural.

Alacremente libertos do fardo insuportável da história das ideias que os precede – pois que estão no limiar de perder o dom da escrita e a linguagem oral se lhes turvou – caminham agora obscuramente rumo às veredas ínvias do futuro, embalados pelos cantos desgraciosos das sereias e pela grande mentira planetária que ronda.

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THOMAS STRUTH

Maurice Blanchot (1) : Tomar consciência, e sempre de novo, de que estamos no fim da História, por forma que a maior parte das noções recebidas, a começar pelas da tradição revolucionária, devem ser reexaminadas e, tais quais, recusadas. Reconheçâmo-lo: Marx, Lénine, Bakunine, aproximaram-se e afastaram-se. Há um vazio absoluto atrás, como adiante de nós, e devemos pensar e agir sem assistência, sem outro apoio que não seja a radicalidade deste vazio. Ponhamos tudo em causa, incluindo as nossas certezas e esperanças verbais. A REVOLUÇÃO FICOU ATRÁS DE NÓS, objecto, já, de consumo e por vezes de gozo. Mas o que está diante de nós, e que será terrível, ainda não tem nome.

António Vieira

Lisboa, 3.11.2013

(1) Écrits Politiques 1953-1993, Paris, 2008 (Gallimard / Les Cahiers de la NRF), p. 204.

14 opiniões sobre “Um ensaio de ANTÓNIO BRACINHA VIEIRA* sobre o terror do capital financeiro, a biopolítica e o futuro

  1. Brilhante e arrasador! O texto não deixa nada de pé no seio do império da mercadoria (ou da sociedade do espectáculo): os média, a genética, a linguagem, a ciência, a literatura, a arte, enfim, vem à baila toda a cultura contemporânea, tornada escrava da mercadoria, como no texto tão bem se observa.

    Mas quero (acreditar que é possível) duvidar do seu niilismo debordiano (do ‘último’ Debord, quero dizer), segundo o qual “o grande escândalo da sociedade abjecta é que ninguém mais se possa escandalizar” (Debord disse-o em 1988). Concedo que em boa parte partimos (nós, espécie humana) de uma miserável “matéria de base” (definida pelo mimetismo doutrinador/manipulador e pela propensão hierárquica/classista, referidas no texto). Ainda assim, quero acreditar (PRECISO DE ACREDITAR) ser ainda possível construir/divulgar uma crítica radical da sociedade totalitária do espectáculo, apesar desta sociedade se fortalecer diariamente, como brilhantemente descreve o autor, pela dispersão infinita de écrans, pela instauração informática de um sistema panóptico, pela submissão neurológica/genética a bio-poderes ou pela destruição da linguagem/escrita.

    Lancemos pois um repto a este blog (para animar/estimular ainda mais – como se isso fosse possível – os seus autores/leitores): torná-lo capaz de provar que continuam a poder irromper veículos para os discursos insubmissos se fazerem escutar neste país, apesar da “muralha ciclópica do optimismo consumista, reerguida hora a hora pelos títeres do poder subterrâneo”.

    Que o futuro deste blog seja determinado, mais do que por qualquer outro desafio, pela resposta a um tal repto!

  2. Olá,
    Este ensaio foi-me sugerido por um amigo sociologista que dado o seu mestrado em recursos humanos trabalha na face do capital, num banco.
    Diz ele em anexo ao link sugerido: “hum..se calhar é defeito de profissão”.

    Sou um jovem médico, desde cedo que paro e olho para a sociedade. Fosse no secundário, na faculdade ou agora que trabalho. Paro e penso. Escrevo “n” ensaios, busco mais que lixo pela “internet” e encontro algumas correntes interessantes. Umas mais analistas, outras mais revolucionárias, outra utópicas, outras de exposição. Poucas de solução, mas existem.

    O meu caro amigo e eu de visões que colidem na análise sugere-me que não é possível mudar. Que a sociedade e os seus elementos terão dinâmicas próprias. Eu acima de tudo vejo o quanto foi mudado tão recentemente e como os indivíduos foram “vandalizados” nos seus princípios e moral, por mecanismos uma vez compreendidos utilizados de modo intencional.

    Numa altura que da análise político-social-económica “sózinho” faço o exercício para construir as bases daquilo que acredito que possa ser uma solução real, muito embora mudasse muitos balanços de poder, gostava de partilhar os meus pensamentos e escritos convosco (em privado) e perceber se escreveis porque acreditas numa solução ou porque a inteligência de seres a excepção na compreensão da realidade vos basta.

    1. Por mim, e por muitos que escrevem sobre e agem na sociedade financeira abjecta, nem o faço por acreditar numa solução (“apenas” acredito numa sequência de eventos emancipatórios), nem o faço pela “inteligência da minha excepção”. A tarefa é empurrar a comunidade para a solução, não a prescrevendo.

      1. Pois. E como vai essa “tarefa”? Eu acredito que pequenas acções de diferentes indivíduos podem estimular os seguintes. Tipo dominó. Não acredito nem deixo de acreditar que a solução seja o que defendo e escrevo mas tenho esperança que caso não seja também não venha a ser só lixo, que seja pelo menos um “empurrão” a alguém que acrescente algo que então faça a diferença. É isso que a mim me faz “empurrar”.

  3. Identifiquei-me com o texto. Foi quase um relembrar do que já sei (da verdade que está em mim e reconheço), só que não o saberia expressar da forma exemplar como está escrita. Muito Bom o Ensaio.Deveria ser lido e estudado por todos os alunos em vez dessas tretas que o ministério da educação reciclou nas disciplinas de matemática, física, química, português.

    1. Textos como este, raros e preciosos, deviam ser de leitura obrigatória nas escolas secundárias para substituir os miseráveis manuais das ciências sociais, cada vez mais parecidos com ecrãs, cada vez mais imagens e falta de textos de reflexão, no cumprimento do “princípio sagrado” dos media: Uma imagem vale mais que mil palavras!
      Que me adianta tentar dizer-lhes o contrário- uma palavra suscita mil imagens-, se tudo á sua volta lhes grita: “vê-me e no comment”?!

  4. O Foucault fala,e bem, na lenta substituição do suplício pela sanção garantida pela vigilância apertada.Ponho aqui a hipótese contrária,de que a causa da decadência europeia seja precisamente a falta de punição garantida no caso de acordos feitas com plena liberdade.Se calhar a União Europeia está em crise porque não foi interiorizada pelos países como sendo contratualmente formalizada entre todos com REGRAS POR TODOS ACEITES.De alguma maneira quem fingiu não perceber será desculpado!
    Se calhar sociedades em que regras estabelecidas democraticamente e em plena consciência poderão estar condenadas ao fracasso deriva precisamente da falta de vigilância e punição!
    Mas isto é uma pequena provocação!Sem no entanto deixar de pensar que para haver desenvolvimento económico têm de existir regras de ” trading”básicas que devem ser redimidas rápida e claramente em tribunal!

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