LER ATENTAMENTE ANTES DE SE PARTICIPAR NUMA MANIFESTAÇÃO: para se saber ao que se vai, como se vai, por que se vai, para que se vai

FRANCE VIOLENCE

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Nas vésperas de mais uma manifestação contra a destruição do Real e da vida em marcha por um “governo” ilegítimo e genocida, nas vésperas de mais uma capitulação (aceitar não ocupar as escadarias públicas da Assembleia do arquitecto Ventura Terra) à pseudo-legalidade de um espaço público formatado pelo sistema económico que se pretende atacar (porque nos destrói as vidas, antes de tudo, portanto é ele a entidade beligerante), este texto de 1968 (!!) é uma lição sobre o sentido da revolta, de uma perspicácia notável que implica o entendimento profundo, a táctica e a compreensão dos actos dessa mesma revolta: numa situação extrema, como se costuma dizer, a destruição de capital e de bens de consumo (megastores) é um acto que ajuda o sistema e o problema da sua superabundância, mas não é isso o essencial – a revolta extrema e eventualmente violenta (envolvida no momento e nunca o antecedendo) revela a hipocrisia de uma legalidade que se preocupa apenas com quem possui os meios de exploração do trabalho (que o “governo” representa violentamente, por exemplo expropriando reformas, essas sim propriedade privada), uma lei que apenas defende a propriedade e nunca a relação social e humana dos intervenientes na comunidade, uma lei monstruosa que um acto desesperado desvela completamente. Uma lei essa sim anti-social que, a não ser travada, levar-nos-á para a Idade Média ou para o “pleno emprego” esclavagista. Passemos à leitura:

 1. Motins incendários: seu significado, sua importância (tema aprofundado em 2.)

«Atear um incêndio, pode sustentar-se, não é uma boa ideia uma vez que pode colocar outros em risco, pessoas que não devem ser sujeitas a tal.

Incidentes específicos de fogo posto, pode sustentar-se, não é uma boa ideia uma vez que este género de ataque ao mundo capitalista do consumo – e tal, presumivelmente, é a tese sustentada por quem incendiou uma mega-loja em Frankfurt – este tipo de ataque e fogo posto não vai revolucionar o consumismo; não provoca danos ao sistema de todo. Ao invés, junta-se aos mesmos mecanismos que conduzem os mecanismos do consumo, ajudando os que com tal enriquecem a fazerem ainda mais dinheiro. O princípio que conduz a produção e o consumo neste país, o princípio que está na base do lucro e da acumulação do capital, não é destruído na destruição de alguns bens; é antes reforçado. A destruição de alguns bens – livres de taxas – faz um grande favor aos que obtêm dinheiro produzindo e vendendo os bens que proliferam nas grandes lojas. Os danos – os lucros, por outras palavras – estão garantidos pelas seguradoras. Estes incêndios facilmente resolvem o problema da superprodução e dos mercados que estagnam por escassez de vendas (…).

A riqueza socialmente produzida não é efectivamente destruída por tais vias espectaculares de fogo posto ou envio de produtos para lixeiras. A indústria tenta superar a saturação do mercado de consumo produzindo “novos modelos” de dois em dois anos; gastando milhões em pesquisas que têm muito menos a ver com a melhoria dos produtos do que com o modo de os vender; provendo recipientes para os lixos privados dos consumidores, para o depósito de inutilidades, mas muito caras, no fundo embrulhos lucrativos que o consumidor tem de pagar até a sua remoção; através de publicidade radicalmente hipócrita, tanto quanto financeiramente elevada. Milhões em esforço, tempo e investimentos são esbanjados na edificação de obsolescências, vestuário e desgaste; desse modo frigoríficos, máquinas de barbear, brinquedos, outros fornecimentos, deixam rapidamente de ter uso, considerando o tempo e a energia investidos na sua produção, e tudo mantém artificialmente uma procura que, por seu lado, aumenta os níveis de lucro através da produção e venda, lucros privados que nunca satisfazem necessidades sociais pois apenas facilitam a acumulação de capital. (O que o capitalismo proporciona vende-se numa megastore. O que se não pode aí comprar, o capitalismo apenas providencia parcialmente, incompleta e insuficientemente: hospitais, escolas, jardins de infância, sistemas de saúde, etc.)

2. Estado: quais as suas leis destrutivos que serão destruídas

Seja como for, quando a riqueza socialmente produzida é destruída por motins incendiários, tal não difere qualitativamente da destruição social sistemática da riqueza social pela moda e publicidade ou obsolescência necessariamente produzida.

Nesta perspectiva, incendiar uma mega-loja não é uma acção anticapitalista; pelo contrário, mantém o sistema e é contra-revolucionário.

Mas o aspecto progressista de incendiar uma megastore não reside na destruição de bens, mas no acto que configura crime, na violação da lei. Violação de uma lei que não protege os indivíduos nem o seu esforço nem o valor investido e produzido que aparece depois destruído e espoliado. Uma lei que não protege ninguém da mentira dita pela publicidade aos produtos produzidos pelos próprios; uma lei que não nos protege de estarmos separados do que cada um produziu por causa do modo como o lugar de trabalho está organizado e a informação sonegada, que nos torna sujeitos produtores e consumidores ao serviço dos que se quedam com os lucros e os reinvestem a seu bel prazer. E esse bel prazer nada mais é que aquilo que concorda com a lógica do lucro, investimentos conducentes a lucros ainda maiores, nunca onde o dinheiro pode ser usado efectivamente e por todos – por exemplo, na educação, na saúde pública, nos transportes públicos, na paz e nas regras ambientais ou na educação sexual.

A lei violada nos incêndios de megastores não é a lei que protege as pessoas. É A LEI QUE PROTEGE A PROPRIEDADE [sublinhado meu]. Diz a lei que a propriedade de outro não deve ser destruída, posta em causa, danificada ou incendiada. A lei protege os que abusam da propriedade e nunca os que são vítimas desse abuso, a lei não protege os que criam riqueza com o seu trabalho e consumo. Protege todos aqueles que têm, na legalidade capitalista, o direito de acumular riqueza. A lei dirige-se à separação entre os trabalhadores que criam os produtos dos produtos por eles criados.

E por muito desesperado que seja o acto de incendiar uma megastore, o que o incendiário faz aos produtos e o que ele pretende – i.e., romper a lei que apenas permite aos proprietários fazer o que querem com a sua propriedade, romper a lei que protege a lógica da acumulação sem proteger ninguém desta lógica e bárbaras consequências – esta ruptura da lei, este acto criminoso, é o que tem de progressista tal acto de incendiar uma mega-loja. E isto deve ser conhecido e reconhecido como tal, e nada o pode acultar (…)» (Ulrike Meinhof, “Incendiando Megastores”, 1968).

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O que fazer, então? Reiventar a desobediência. Como em 1968? Não, como agora, como quisermos.

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